quarta-feira, 1 de abril de 2009

Declama o coração

Acordei inebriado. E me pus de pé em segundos, a ponto de ter aberto apenas um olho. Naquela escuridão andei, cheguei à janela e vi uma grossa bátega ao lado de fora, a qual fazia meus olhos sentirem-se translúcidos. Não me contive ao ver que todos dormiam e a cidade hibernava esta noite, assim me vesti e saí.

Tomei o elevador sem destino - talvez fosse rebeldia minha ou apenas desatino – e no átrio do prédio ausentava-se o porteiro, para sorte minha, porque não queria ser visto. E ao passo que ganhava a rua também encontrava o norte, ele levava-me à praia, para lá caminhei, e em alguns minutos cheguei, mesmo com torrencial chuva. À ela, agradeci por esconder – mesmo que de ninguém fosse – o sal que descia a face.

Lá, quando aportei não vi porto e tampouco saberia dizer se era meu destino, só posso afirmar a vitalidade desta praia para mim, e avistei o ocaso. Ele começava e findava em água, se é que finda. Então, neste momento, a chuva cessou juntamente ao sal meu. Assim, olhei para o infinito – este sim é ao menos até provarem ao contrário – no qual percebi o amor da lua com as estrelas. Notei a distância entre eles, porém a aflição pairava no ar, porque não podiam se beijar, e o amor não podia se consumar, nesta aparente paradoxal proximidade havia uma vida para separá-los. Reparei, também, agora com muito esmero que a Lua desejava a Estrela - sentimento recíproco, por sinal – durante todo dia e ao término dele se ver, contudo, era assaz para declararem seu eterno e mútuo amor.

Pronto, acordei e vi o sol na janela. Assustado, abri o jornal e me deparei com a notícia: “Não chove há dez dias, e o calor começa a incomodar.” Perplexo, pensei que o “calor” nunca tinha me deixado tão amedrontado. Porém, naquele crepúsculo matutino fui apresentado à verdade. Ela me confidenciou que eu não era a Lua e tampouco a Estrela – menos, ainda, pretensão teria eu – e em virtude disso meu amor não era impossível, não era separado por uma vida, era palpável. Entretanto, nada me isentaria de semelhante padecimento, uma vez que se neles morassem a triste certeza da impossibilidade, a mim restava à incerteza, a possibilidade, ou só o quase.

3 comentários:

  1. Daniloww! Maneira a iniciativa, um dia mando uma dessas também .....
    No entanto, tenho alguns comentários a fazer:

    achei o texto maneiro, um bom modo de dar vazão aos "fluxos de consciência e inconsciência", mas o ser humano de simples não tem nada e tentar descrever os seus sentimentos num texto como esse não é tarefa fácil. Dito isto, achei algumas partes confusas que, para você talvez não sejam, mas para o leitor as são. Releia o texto e reflita sobre como torná-lo mais simples e acessível.

    outro crítica que tenho é sobre o uso de palavras não rotineiras como "bátega" e "ocaso", não vejo nada de errado em usa-las mas que seja de um modo que o significado delas se faça visível no decorrer da escrita.

    Bom é isso. Depois comento nos outros textos!
    Abraço

    ResponderExcluir
  2. Para mim o melhor texto até agora! O mais poético também...
    Aguardo o próximo post, Danilo.

    Abraço

    ResponderExcluir
  3. Danilo, querido! Bom lê-lo, e sabê-lo disposto a ser expor assim, de forma tão rasgada. Os nossos textos são como nossos retratos, mas um retrato ao revés: de dentro. E olhar para dentro não é mesmo tarefa fácil, e as palavras (dirijo-me ao Gabriel também, que comentou seu texto) são concretas, e como tais, não podem exprimir exatamente o que temos de abstração, ou, digo melhor (tento), o que ou quanto SOMOS de abstração. Bem, a linguagem é libertação, e, ela própria, o limite. Dessa forma, como nos diz Drummond, "lutar com palavras é a luta mais vã". Sendo assim, deixe que seu fluxo de muita consciência emerja, sempre. Partes confusas haverá. Somos incoerentes muitas vezes, nunca simples, às vezes claros. E nem sempre escrevemos para que todos nos compreendam. E só não digo que escrevemos para nós mesmos, porque escrevemos aqui, e só isso já é indício de que queremos ser lidos. Mas é indício, e não a verdade. Beijos!!! Cuide de seus textos, releia-os sempre, refaça-os sempre... é uma parte do caminho.

    ResponderExcluir