sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sinestesia



A sutileza de abraçá-la com as palavras, de amá-la mesmo a distância e em silêncio, de beijá-la numa troca de olhares. A reciprocidade do sorriso que declara, tacitamente, ‘eu te amo’, enquanto por dentro o sentimento é de ‘eu te quero’. O sorriso abraça, os olhos beijam e as palavras acariciam. O olfato percebe o doce gosto de laranjeira ou seria um cheiro de café, mas não, é apenas o seu aroma de mulher... Ela tem pernas longas e belas; os olhos aduzem o gosto que se assemelha ao do vinho em uma noite fria de outono, com as mãos sente-se que o paladar daquelas pernas é, decerto, do calor em uma noite fria de inverno, regada a vinho tinto. Fazendo, assim, as palavras ficarem inebriadas, o sorriso frouxo, o corpo leve e o lençol, sutilmente, emaranhado. O tato, o paladar, a visão, o olfato e a audição são reduzidos a mais primitiva das sensações; as mãos conduzem e fixam o momento (e a leveza), a língua aprimora o gosto puro daquela embriaguez, o olfato se perde por um instante, a audição agudiza e os olhos viram... Vê-la calipígia, ao acordar, com os olhos das mãos, os cabelos longos espalhados pela cama, o rosto dela descoberto, completamente nu, sem qualquer inibição, é uma sensação sem igual. É possível, ainda, ouvir o som da felicidade no silêncio matinal, sentir o perfume do seu cabelo com a ponta dos dedos, tocar sua pele glabra e, finalmente, neste átimo de epifania, ver o gosto sutil do amor.

terça-feira, 7 de março de 2017

O frenesi das palavras

Tropeço nas palavras,
Quero ordená-las, ordenhá-las, mas não consigo.
Escrevo, apago, volto a escrever, retorno a apagar.
Gravo, apago, gravo novamente, e, por fim, apago a gravação.

Nossa... Por quê tamanha indecisão?
Simples: o coração padece.
E agora, o quê fazer?
Restou o riso, o comum, o nada, a vida, tudo...

Não podemos controlar o amor, não terá lógica,
Nem razão. Não adianta apelar para oração.
Só há união se estiverem suficientemente “bêbados”,

Escusável ficar preocupado,
É preciso não se incomodar,
Amar é estar embriagado.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O grito calado.

Como se faz para gritar ao mundo e não ser escutado?
Ora, não seria melhor permanecer calado?
Pois bem, o silêncio não alimenta...
A ausência das palavras se traduz em fome.

O corpo pede movimento
O coração quer cantar a paixão, sentimento sem nome
Razão que prefere o não.
A dúvida do não, o risco de não tentar.

Para quê se iludir?
Argumenta a razão.
Fale seu amor,

Suplica o coração.
Ela é linda, uma dama, e eu, apenas, um vagabundo,
Fica o silêncio. Menos um casal, menos um amor no mundo.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Flor de Lótus


Amar é um sentimento inebriante. Aceito.
Mas, será possível desamar?
Como pôr fim no amor que sufoca o peito?
Não tê-la asfixia, e faz recordar o que era pra olvidar.

Seu cheiro está em meus pulmões,
Os olhos dela brilham em todo lugar.
Ahhh... Aquelas pernas...
Com elas, me fazia prisioneiro.

Flor de Lótus.
No seu ventre, eu não tinha paradeiro
Depois, éramos um só. Uma cruz.

O néctar, o mel...
Nos lábios, o gosto doce do nosso sal,
Não era fel. Mas, puro prazer. Éramos eu e você.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Quanto tempo o tempo tem?

Olho para o relógio e vejo as horas...
Mas, seria capaz de ver o tempo?
Seria capaz de saber quanto tempo nós temos?
Quantos anos cabem em uma vida?

Dez anos pra mim são iguais a dez anos pra você?
Para cada indagação, uma medida...
E as respostas não quero saber...
Só me interessa o rodamoinho do tempo.

Jogo-me de cabeça no futuro do presente,
Pois, o pretérito mais que perfeito
Foi embora e me deixou ausente.

Quero o ar que irei respirar, já estou refeito.
O amor não pode esperar,
É ela, embora em silêncio, quem eu cuido no peito.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Valor.

A semana foi cartesiana, o domingo era igualmente, porém cansativo e enfadonho...
Era um dia 05 de fevereiro de 2017.
Era como qualquer dia, como o dia anterior ou como o dia que estava porvir.
O relógio cravava 19:30 horas da noite. Meu sangue fervia, eu estava inquieto em casa,
Andava de um lado para o outro, não sabia o que fazer.

Tomei coragem, digo, tomei dois dedos de cachaça, no verão carioca.
Aquilo desceu rasgando, a inquietude se somou a raiva da cachaça queimando e saí.
Peguei o carro e fui para a Praça XV.
Pronto! Estava decidido. Eu ia para Paquetá!
Mas, o quê eu faria aquela hora da noite em Paquetá? Qual o horário da última barca pra voltar?

E daí? Pensei! Por que isso interessa? Cansei!
A semana toda foi exageradamente marcada, cronometrada. Agora, não seria mais.
Larguei o carro na Praça XV, ainda com o gosto de cachaça na boca.
O gosto não era fel, nem mel. Mas, estava feliz. Satisfeito.
Peguei a barca.

Dormi por meia hora e curei-me dos dois dedos de cachaça que havia tomado.
Vi que tinha 3 horas na ilha, até a saída da última barca de retorno.
Corri para o aluguel de bicicletas, mas estava fechado.
Um senhor, muito educado, do outro lado da rua me viu e ofereceu o camelo.
Aceitei. Disse que faria questão de pagar o aluguel. Ele não aceitou.

Mas, pediu um abraço. Espantei-me. Mas, claro, retribui o gesto de caridade. Abracei-o.
Contudo, minha curiosidade falou mais alto. Indaguei o porquê do braço.
Como se precisasse de um motivo para dar um abraço,
Mas, acostumado com a cidade grande, deixei escapar minha insensibilidade na pergunta.
De imediato, ele me respondeu.

Sua barba, sua camisa alvinegra com esta Estrela Solitária no peito, aqui em Paquetá.
Isso tudo lembra meu filho, finalizou o senhor.
Não tive coragem de perguntar o paradeiro do filho, mas notei esperança e amor naquele olhos.
Possivelmente o filho dele saiu "para o mundo" e não voltou. Quando o senhorzinho surpreendeu.
E, ele disse.

Não sou louco, nem carente, você lembra meu filho e pronto. Pode curtir sua pedalada, finalizou.
Então, observei-o com os olhos de admiração e disse.
Gosto de sua sensibilidade com sua franqueza, quiçá, pra muitos, frieza. Também sou assim.
Ele sorriu com admiração. Assenti com o movimento da cabeça e ganhei a rua.
O vento assobiava em meu ouvido. Era isso que queria, isso que me faltava.

Pedalei por toda ilha, ora acelerava, ora diminuía.
Voltei ao ponto de partida, e aquele senhor não estava mais lá. Soube que ali foi  a partida dele.
Arrepiei-me, quando soube. Deixei a bicicleta onde apanhei. Peguei uma caneta emprestada,
E deixei um bilhete, como fosse uma lápide.
Ali escrevi.

O amor e a franqueza andam juntos, ser sensível e honesto, a um só tempo, é possível. Obrigado.
Fui embora. Triste pelo acontecimento. Feliz pelo ensinamento, talvez o último daquele senhor.
Quiçá um dos mais importantes, que levarei por anos a fio.
Dei mais valor a minha semana cartesiana, mas aprendi que o tempero da desordem é essencial.
O vento de Paquetá ainda assobia em meus ouvidos, ainda raspa minha barba.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Acabou...

Ela sempre esteve ao meu lado.
Achei que nosso relacionamento fosse eterno, palavra de honra...
Para onde eu ia, ela estava comigo.
Aos olhos dos amigos, eu era velho, o estranho.

Eles não entendiam, estávamos juntos há mais de 20 anos, um amor que não cessava.
Quando eu ia pra escola, estava comigo.
No curso técnico, me acompanhava.
Pra faculdade? Sempre ao meu lado.

E no trabalho? Ia e voltava junto! Amor renitente.
Enfim, eu escutava rádio, na época da rede social, do spotify, do meme...

Se triste ou feliz, ela lançava sempre sua voz sábia e pertinente.
Como era linda a companhia da MPBFM!
Foram incontáveis as vezes que me atrasei para ouvir seus programas,
A Voz do Brasil virou rotina, para nunca sair da sintonia,
Sempre em 90,3 FM.
Para muitos, eu era velho, e essa era, apenas, mais uma uma mania.

Ignorava as gozações.
Prevalecia meu amor por aquela rádio, até quando não havia música.
O amor, às vezes, se torna um ritual, e assim era.
Nem futebol, eu escutava no rádio, para estar sintonizado com ela.

Agora, após tanta fidelidade, o fim.
A morte chega para todos, e ela foi primeiro...
A vida foi feita assim.
Mas, não poderia ser um pesadelo ou apenas um erro?

Entrementes, não é. De fato, acabou!
O jardim botânico não terá as mesmas flores,
Nem a praia o mesmo azul, tampouco o Aterro a mesma beleza.
Agora, como vou curar minhas dores? Como ficarei, se "eu me morrer" de amores?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A vida é arte do...

É inegável, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida, disse o poetinha.
Benção é poesia? Não. Benção peço eu.
Benção ao amor! Ao AMOR, de verdade, que voltei a sentir...Achei que jamais fosse sentir isso de novo, reflito em voz alta...

Mas, quando ela entrou na sala de reunião, naquela manhã, estranhei...Não entendi. No começo achei que fosse só uma atração, afinal uma mulher linda. Para mim, era simples, passageiro.
Entretanto, o sentimento seguiu, não parou por aí...

Se visualmente ela é linda, quando ela falou, Meu Deus!!! Substancialmente, pondo sua essência para fora, era coisa de outro mundo, lhe faltam adjetivos, o Aurélio não sabe como homenageá-la.
Benção, peço eu, ao Poetinha! Voltei a sentir inspiração, fiquei baqueado! O mundo parou! A vida, naquele instante, parou! Não, Drummond. Não era o automóvel, não era o sinal de trânsito.

Voltei a sorrir e me sentir mais do que um mero ser igual a todos os outros, me senti, unicamente, feliz! Sei que, provavelmente, ela não notou em mim, tampouco nutriu uma reciprocidade.
Contudo, para nós, românticos, loucos que somos, como diria o saudoso Vander Lee, é suficiente o fogo-fátuo do AMOR que nasce sem pretensão, nasce sem a certeza do sim, e com a probabilidade do não, é essa coisa apaixonante, é algo vital!

Assim, hoje, nesse dia especial, as palavras ganharam força e chegaram ao papel, saíram da inércia com a força motriz de um simples sorriso, de um simples olhar. Equivoco-me. Na verdade, foi aquele sorriso, aquele olhar, com a força que só ela tem e me acendeu...

Não farei prognóstico,
Vou viver,
Como deve ser,
Na esperança de dedicar para ela, um dia, o mais lindo acróstico!

Enfim, essa história, talvez não tenha início, meio ou final,
Mas, decerto, o Amor em mim renasceu,
E a vida continua sendo a arte do encontro, e mais...
A vida só se dá pra quem se deu.

Benção Poetinha!